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Para o MP, as atividades bancárias de Queiroz comprovam que transferia parte dos recursos ilícitos desviados da Alerj diretamente ao patrimônio familiar de Flávio, mediante depósitos e pagamentos de despesas pessoais. Os investigadores detectaram pelo menos 116 boletos bancários referentes ao custeio do plano de saúde e das mensalidades escolares das filhas dele e da sua esposa, Fernanda Bolsonaro, com dinheiro em espécie. A suspeita dos promotores é que despesas no valor total de R$162 mil podem ter sido quitadas por Queiroz. O MP conseguiu imagens do circuito interno de uma agência bancária dentro da Alerj que mostram o momento em que Queiroz pagou dois boletos escolares das filhas de Flávio em dinheiro vivo, em 2018. Não é o único caso em que há operações suspeitas feitas com dinheiro vivo. O Coaf identificou 48 depósitos de R$ 2 mil cada, num total de R$ 96 mil, nas contas de Flávio. As investigações concluíram ainda que houve indícios de lavagem de dinheiro em outros bens adquiridos pelo senador. É o caso do pagamento de R$ 31 mil, em espécie, a uma corretora de valores, feito para cobrir prejuízos financeiros referentes a investimentos que Flávio e Carlos Bolsonaro fizeram na Bolsa de Valores.
Também há outros indícios. O dinheiro supostamente também era lavado por meio de uma loja de chocolates num shopping do Rio — que recebia aportes maiores do que o faturamento — e aplicado em imóveis. Entre 2010 e 2017, o senador comprou 19 imóveis por R$ 9 milhões. Segundo os promotores, lucrou R$ 3 milhões em transações imobiliárias com suspeitas de “subfaturamento nas compras e superfaturamento nas vendas”. O MP analisou 37 transações imobiliárias do senador entre 2005 e 2018. As suspeitas sobre essas transações vão ser aprofundadas nas próximas etapas da investigação.
Flávio até agora conseguiu se livrar do único inquérito conduzido pela Polícia Federal no Rio de Janeiro, a apuração de falsidade ideológica para fins eleitorais, que se refere ao financiamento para a aquisição de um imóvel. O senador atribuiu valores distintos a um mesmo imóvel nas declarações de bens entregues à Justiça Eleitoral nas eleições de 2014 e 2016. A PF já pediu o seu arquivamento. O promotor eleitoral do caso avalizou o arquivamento. O juiz Itabaiana, que também conduz a apuração da “rachadinha” na 27ª Vara Criminal, submeteu o arquivamento à Câmara do MPF.
O filho 01 do presidente tenta se desvencilhar da imagem de Queiroz, sem sucesso. Após a revelação de um áudio em que Queiroz dá orientações sobre como conseguir nomeações em gabinetes no Congresso, em outubro de 2019, o senador afirmou que não tinha mais “nenhum tipo de contato” com o ex-assessor. Em maio, defendeu Queiroz e o chamou de um “cara correto e trabalhador”. Tentou bloquear as investigações do MP várias vezes. Em julho de 2018, conseguiu que o ministro Dias Toffoli, do STF, suspendesse todas as investigações no País que tinham como base dados compartilhados pelo Coaf sem autorização prévia da Justiça. A medida só foi revertida pelo plenário da corte em novembro, quando as investigações puderam ser retomadas. Em dezembro, o cerco começou a se fechar. O filho do presidente ainda aposta que o MP não vai conseguir apresentar sua denúncia. Conseguiu na quinta-feira, 25, um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Rio que trava o processo, ainda que as provas tenham sido preservadas. Alegou ter direito ao foro privilegiado, pois os fatos investigados ocorreram quando era deputado estadual. É um alívio provisório. Ao mesmo tempo, mudou de tática. Depois da prisão de Queiroz e do afastamento do advogado Frederik Wassef, pediu para ser ouvido no inquérito.

Bolsonaro acuado
Jair Bolsonaro sustenta que não tem ligação com o escândalo do filho. Mas suas digitais estão por toda parte. Pouco antes de assumir, tentou explicar o repasse de R$ 24 mil de Queiroz para a conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Disse que o valor se referia ao pagamento de empréstimo não declarado de R$ 40 mil. Entre os supostos funcionários fantasma do gabinete do filho, dez eram da família Siqueira, de Resende, no Rio. Todos são parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente. A ligação com Queiroz é notória. O mandatário já admitiu que a condecoração a Adriano da Nóbrega na Alerj ocorreu a seu pedido. Naquela época “Adriano era um herói”, disse. Mas o presidente nega ter ligação com milicianos.
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