O mundo isolado
Com poder destrutivo avassalador, o novo coronavírus forçou as pessoas a esvaziarem as ruas e se trancarem em casa, transformou cidades extremamente movimentadas em fúnebres desertos e modificou em todo planeta as relações sociais e profissionais

TIMES SQUARE, NOVA YORK Imagem da quarentena imposta pela Covid-19: a alegria cedeu lugar à tristeza e ao medo da morte (Crédito: Tayfun Coskun)
De repente, o mundo globalizado ficou quieto demais. De repente, invertendo-se aqui o que diz a amorosa composição de Edu Lobo e Chico Buarque, não mais se viam “bocas passando saúde com beijos nas bocas”. O “moto-contínuo” do universo parou. Apertos de mãos viraram cotovelos batendo de leve em cotovelos. Beijos, adeus beijos. As relações financeiras e de consumo se construíram pela internet como nunca fora visto, as atividades profissionais se confinaram em home office. Ela, a inevitável solidão, quando é voluntária, torna-se uma conquista; quando imposta, como o foi pela Covid, se traduz em aprisonamento. O mundo isolado, para aguentar-se isolado, agarrou à resiliência. O silêncio do universo foi tanto que ele próprio, o silêncio, zumbia nos ouvidos. E não é para menos: como se disse, de uma globolaziada Terra passou-se ao vazio — o planeta se transformou em uma cidade fantasma. O distanciamento se impunha como meio de contenção da doença.

A notícia que gerou o isolamento veio da província chinesa de Wuhan. O coronavírus, até então um inofensivo vírus de resfriado comum, passara por uma recombinação genética e se tornara altamente fatal à espécie humana com assustadora capacidade de transmissão — no espaço de um mês, dezessete óbitos em Wuhan. Em janeiro, cientistas recomendaram ao governo chinês drásticas medidas restritivas de circulação de pessoas. A lição de casa foi feita, mas não aprendida de imediato por outras nações. A Europa demorou a crer e a Covid-19 iniciou sua fúnebre caminhada pela Itália. Nesse país, o isolamento foi sendo postergado. Os pulmões estouraram e a Itália precisou se recolher. Italianos são italianos: de prédio para prédio, as pessoas conversavam por meio de gestos, soltavam a voz em afinados ou desafinados sustenidos, e, sobretudo, tocavam instrumentos em uma louca mas salvadora sinfonia.
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